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:) CanalSonora (:

_________________________________ a 37° 7′ 0″ N, 7° 39′ 0″W ____________________________ ~pequenos livros ~ grandes segredos ~ volumes portáteis ~ emoções resguardadas~

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FERNANDO CABRITA ~ Três Odes

« E o cão continua a ser o nosso melhor amigo? »

Ainda no rescaldo das edições de final de 2017, encontramos esta leitura de Maria Afonso 

ao livro Três Odes de Fernando Cabrita

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Ode à Minha Rua - “Dormíamos à tarde porque sabíamos que havia mar”. “O grande segredo das nossas existências era o mar (…) que corria a nosso lado como um cão fiel”.

Ode a Tirésias – “Quem chegou do mar, entre abetos mortos e pranchas de naufrágios de ontem?”. “E o cão? Não tem cão? Deixe lá. Logo lhe aparecerá um. Há tantos por aí, abandonados”

Ode ao Vento – “Lembras-te quando nos sentávamos frente ao mar e eu ali ficava, vendo-te, e à tua invisível mão, a pairar sobre as águas? “Corre a meu lado, cão fiel”


A rua, Tirésias e o vento. Uma doce melancolia atreve-se a ocupar um espaço oco dentro de nós. Todos vivemos naquela rua e tivemos amigos e vizinhos de quem não esqueceremos os nomes. Ainda os chamamos para que nunca morram. Aguardamos, sentados, por dentro da lembrança. Temos a certeza que um dia andámos de bicicleta na nossa rua. A opacidade da vida que correu mais veloz que a bicicleta turva-nos o sol. Mas se na nossa rua “o mundo era muito maior. E nós imensos”, por que não havemos de manter “a saudade sentada num cais em forma de coração”?

Tirésias, o homem e a mulher que também somos. Vidente, sim. E nós com ele, cegos, a adivinhar o futuro que não desejamos revelar. “Quando chegaremos a nossa casa?”, ainda que regressemos “fantasmas do que fomos (…) sem rosto”. Um trovador pode sempre amenizar a “maldição de ter todo o futuro e todo o passado”. Onde o encontraremos se velamos “a queda de um continente”? Então que se amem as serpentes. Que Hera aprenda: se o prazer for divido em dez partes, a mulher ficará com nove e o homem com uma.

“Deixa que te cante (…) meu irmão de sonhos bordados a lira”. Vento. Celebração do amor ao voo de “um ferro-velho das horas”. Sabemos como nomear o vento. Percorremos com ele a história da Humanidade. “Onde andarás hoje? (…) o dia amanheceu na transparência das casas por onde andámos antes. Tu e eu.”. Nós também.

Há componentes paralelos que envolvem as três odes. O que foi e o que é. A rua. O mundo. O vento. Uma memória imorredoura que nos faz andar em frente como uma saudade que se mastiga. Todos os sabores dos dias que morriam nas nossas mãos. Um travo algo amargo a querer retardar-nos o caminho e o sentir. Mas como, se o mar está lá, a sul. E o cão continua a ser o nosso melhor amigo?