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:) CanalSonora (:

_________________________________ a 37° 7′ 0″ N, 7° 39′ 0″W ____________________________ ~pequenos livros ~ grandes segredos ~ volumes portáteis ~ emoções resguardadas~

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MARIA AFONSO | ( eu diria que nevava )

OPINIÃO | Leitura de  Fernando Cabrita

O que faz de um livro de poesia um grande livro de poesia?

capa maria afonso 2.jpg

Julgo não andar muito longe da verdade se dizer que é essa essencial faculdade de nos fazer, a cada palavra e a cada verso, sentir a agitação da alma, o estremecimento da terra, a brancura das tardes de sol e das tardes de sul, as “ilhas que querem morrer sem água”, os cheiros, as imanências do vento, os riso antigos que voltam memória a memória, ou uma tristeza, ou a eternidade de um canto de pássaro, um certo jeito de pulsar o tempo em cada coração.

E se essa grandeza de dar pelas palavras as coisas, pelos versos as sensações, e de emotivamente as dar, quase palpáveis, é ademais servida por uma linguagem afectuosa, primordial e íntima, onde tudo é natural - não apenas aparenta sê-lo, mas figura-se de uma absoluta naturalidade também ela palpável -- , a poesia está ali, plena e inabalável.

Maria Afonso, poeta da Guarda, dá-nos essa plenitude a cada poema. Já o fazia assim, com delicada grandeza e em contenção esmerada e fina, desde o seu Todos os Silêncios, de 2014, de onde retenho esta pérola: “todos os silêncios silenciados nos meus olhos/se ateiam e se evadem na procura/das paragens onde os dias foram/tardes quietas, pausadas, pousadas no horizonte/verde descansado/de palavras escusadas/ e aquele silêncio, um farol./ eternamente o meu farol”.
E o que era já grande poesia, aprimora-se agora neste seu recente Eu Diria Que Nevava, que a Canal Sonora de Pedro Jubilot, como sempre em peça de boníssimo gosto, editou. Leia-se um dos poemas: às vezes os ombros nus testavam /os dias na pele / e as fronteiras eram um rio solto/um dia, águas mais escuras e pastosas / quase lodacentas cercaram os passos/e a ilha quis morrer sem água.

Eis uma voz literária a impor-se. A contenção, repito-a, serve a ideia, a imagem e a linguagem. É brilhante. O formalismo da estrutura poética é de uma concisão que sai da própria ternura discursiva. É quase instintiva, peregrina. Impossível ser de outro modo, para dizer a claridade.Esta poesia habita-nos a alma.O ensinamento de Ezra Pound “ não use no poema nenhuma palavra que não seja absolutamente necessária à frase”, está ali completo, na obra edificanda de Maria Afonso. Poucos serão os poetas que exercitam este rigor da frase contida: Herberto Helder, em muitos dos seus passos; Antonio Osório, seguramente; a brasileira Yeda Prates Bernis , em poemas como que este, de Grão de Arroz: “Ah! Claro silêncio do campo,/ marchetado de faiscantes/pigmentos de sons! /O coração da aranha/ se desfaz em geometria/de seda e mandala”. E Albano Martins, claro, a voz mais depurada e clara da poesia portuguesa na última metade do século passado.
Como poeta, não serei a pessoa mais adequada para realçar as virtudes da concisão. A minha expressão, na poesia, é diversa dessa. Vem torrencial, por vezes incontrolada, em frases longas que se prolongam até ao limite do hausto respiratório para quem lê. Embora creia que não levo ao poema o que lhe não seja necessário, poucas vezes porém consegui essa virtude de contenção e depuração na busca da palavra essencial. Talvez o haja conseguido no volume “ O Amor é Um Claro Mês”; mas pouco mais.
Por isso reconheço esta profunda capacidade poética de escritores que, como Maria Afonso, nos trazem a poesia modulada em notas ínfimas, numa paleta mínima em que porém brilham todas as cores, uma poesia irretórica, igongórica, dirigida ao centro do centro de todas as coisas. E que continua, sempre, a poduzir-se encantatoriamente, sem jamais beliscar, nunca por excesso, claro, mas também jamais por defeito, a beleza congénita da Poesia.

“Eu Diria Que Nevava”, de Maria Afonso é um dos acontecimentos literários de 2016. Perdê-lo é perder o que de bom se vai produzindo em Portugal.